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Pesquisador alimenta um cerebro digital com sua vida
30/01/07 às 09:20 h


Gordon Bell
Uma mente para detalhes

Gordon Bell nunca se esquecerá da minha aparencia.

Ele também nunca esquecerá da minha voz. Na verdade ele nunca esquecerá nenhum pequeno detalhe sobre mim. Isso porque quando eu encontrei pela primeira vez este afável senhor de 72 anos, especialista em computação, nos escritórios do Laboratório de Pesquisas da Microsoft em Redmond, Washington, ele foi cuidadoso em gravar cada movimento meu. Ele tinha uma câmera bem pequena pendurada em seu pescoço e um gravador de áudio em seu cotovelo.

Enquanto conversávamos sobre vários assuntos - jazz australiano, seu celular futurista, o tempo maravilhoso em Seattle -, os aparelhos de Bell silenciosamente gravaram cada gesto meu e toda a minha conversa fiada, tirando uma foto a cada 60 segundos. Em seu escritório, seu computador arquivou cuidadosamente cada documento relacionado a mim, cópias de artigos meus que ele havia lido, páginas que ele tinha visitado em meu blog.

"Eu tenho tudo aqui", disse Bell alegremente. E, quando eu o vi no dia seguinte, confinado em seu escritório particular em São Francisco, ele me ofereceu uma breve olhada nas memórias que havia coletado. Ele pulou para a frente do computador e pronto: centenas de fotos do nosso encontro rolaram pela tela, e o som da nossa conversa encheu o ambiente. Foi um sentimento profundamente estranho. Meu papo sem cabeça estava preservado? Por toda a eternidade? Ele confirmou balançando a cabeça e apontando para um computador bem simples embaixo de sua escrivaninha. Seu "cérebro emprestado".

Eu não sou a única coisa que Bell jamais esquecerá. Seu objetivo é nunca esquecer de coisa alguma.

Nos últimos sete anos, Bell conduz um experimento de "gravação de vida" - um registro digital, quase total, de suas experiências. Seu software customizado, My Life Bits (Pedaços da Minha Vida), guarda o que for possível. Cada e-mail que ele recebe ou envia, todo documento que ele digita, cada chat do qual participa, cada página da web que navega, tudo é copiado. O programa grava seus telefonemas e arquiva mais de 1.000 fotos por dia, tiradas por sua Sense Cam, aquele aparelhinho automático pendurado em seu pescoço. Ele arquivou todo o seu passado: pilhas de documentos acumulados em 47 anos de carreira em computação, primeiro como executivo milionário, depois como burocrata do governo e da internet, foram cavadas e escaneadas. Da última vez que contou, eram mais de 101 mil e-mails, quase 15 mil documentos do Word e PDFs, 99 mil páginas da web e 44 mil fotos.

"E isso", ele ri, "é um monte de merda armazenada."

Esse processo presenteou Bell com uma memória sobrenatural. Ele é capaz de puxar o conteúdo preciso de um bilhete inspirador deixado em sua mesa há 30 anos - um conjunto de aforismos, do tipo "começar vários incêndios". Ele sabe quem passou por ele a caminho do trabalho quatro semanas atrás. E, quando alguém discorda sobre o que ele lembra da "conference call" do dia anterior, ele acaba com a discussão puxando o arquivo de áudio e ouvindo-o de novo, instantaneamente.

"É uma sensação quase que de limpeza", Bell me diz. "Eu posso descarregar minha memória. Agora, eu me sinto muito mais livre para lembrar. Eu tenho esta máquina, este escravo, que faz isso por mim."

Ele afirma que o programa dá à sua mente a chance de ficar mais leve, de ter mais energia para o pensamento criativo. Mas é também uma faca de dois gumes. Bell suspeita que o My Life Bits esteja lentamente degradando sua real capacidade de lembrar as coisas, usando para isso apenas seu cérebro de carbono. Você tende a perder a prática. "É como aritmética", ele diz. "Quem ainda a usa? Você tem calculadoras para isso. Eu sei que consigo fazer longas divisões. Mas não as faço há muito tempo."

Trata-se de um experimento maluco. Mas o mais maluco é que logo você também vai fazer parte dele, queira ou não. Bell acredita que computadores estão se tornando capazes de guardar tudo que você vê e faz cada vez mais rápido. O espaço no disco rígido explodiu em tamanho e a cada dia pessoas gravam mais e mais sobre suas vidas: colocamos nossos pensamentos em blogs, gravamos vídeos e fotos em celulares, preservamos cada e-mail das contas do Gmail, gravamos chamadas telefônicas no hard drive quando usamos o Skype.
"As pessoas dizem: 'O que você está fazendo é revolucionário!'. E eu: 'Não, é evolucionário. Porque está acontecendo com você. Acontece enquanto você fala' ."

Mas como será a vida quando nada for esquecido? Essa pergunta pode parecer provocativa, mas nem um pouco teórica. O pensamento por trás do My Life Bits e outras pesquisas sobre documentação de vida já estão entrando em nossas rotinas. Está mudando a maneira como nossas ferramentas de pesquisa funcionam. E a força das máquinas para criar memória sem limites e até transformar o pensamento humano só vai ficar mais presente. Chegamos a um tempo em que máquinas criam idéias que nunca nem sequer consideramos.


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